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POETAS RUSSOS

Neste renovado espaço poderemos curtir belos poemas da terra de Maiakówski. E saber mais sobre os poetas russos, bem como essa coisa intangível do poeta expressar nossas maiores desesperanças e verter beleza em cada verso.

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Última atividade: 29 Nov, 2013

A LÍRICA DO MUNDO NA POESIA RUSSA

As profundas transformações que ocorreram na Rússia com a revolução de 1917 foram também muito sentidas nos âmbitos culturais. No início, quase todos os artistas eram a favor da revolução, mas passado pouco tempo as obras de muitos deles foram censuradas e alguns chegaram a partir para o exílio. Os principais poetas que viveram este período de violenta transição foram o simbolista Alexander Blok (1880-1921), que ficou rapidamente desiludido com a tão esperada revolução; Anna Akhmatova (1889-1966) que, de igual modo que Bóris Pasternak (1890-1960)), sofreu continuamente a censura, e Vladimir Maiakóvski (1893-1930) que, juntamente com Serguei Yesienin (1895-1925), forma o conjunto dos poetas oficiais da revolução. Às gerações posteriores pertencem Eugeni Evtuchenko (1933), poeta oficial do degelo de Kruschev, e Lósiv Brodski (1940), vencedor do prémio Nobel da Literatura em 1987. Alexander Blok publicou Versos a Uma Bela Dama (1904); A colecção Barraca da Feira; A Desconhecida (1906) e a Máscara de Neve (1907). Antes da revolução Akhmatova publicou três livros de poemas, A Tarde (1912), Rosário (1914) e O Bando Branco (1917), que a consagraram como uma poetisa do amor. A sua poesia , considerada erótica e decadente, sofreu ataques continuos por parte da censura. Após a morte de Stalin, a sua reputação foi restituida e todas as suas obras publicadas.

A poesia russa por onde passou marcou a alma do mundo. Os poetas russos têm algo em comum com os amantes da terra pura e simples, e são reflexos de todas as raças e do homem comum. Neste grupo começo com alguns e espero a contribuição dos amigos para aumentar a quantidade desses poetas. NÃO, NÃO SOU EU
Anna Akhmátova

Não, não sou eu, é alguém mais que sofre.
Eu não teria podido. Panos negros de lã cubram
O que se passou,
E levem embora os lampiões...
.............................Noite.

De A NOITE

Apertei as mãos sob o xale escuro...
“Por que estás tão pálida?”
- Porque hoje lhe dei a beber amargura
até que ele foi embora daqui embriagado.
Posso acaso esquecê-lo? Saiu daqui cambaleando,
sua boca torcendo-se dolorosamente...
Desci correndo, sem nem me encostar no corrimão,
corri atrás dele até o portão.
Angustiada gritei: “Tudo não passou
de uma brincadeira. Se fores embora, morro”.
Sorriu docemente e, com um muxoxo terrível,
disse-me: “Não fique no vento”.

8/1/1911
.....................
Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,
a olhar o céu, a fazer minhas orações,
a passear sozinha até a noite,
até ter esgotado esta angústia inútil.
Enquanto no penhasco murmuram as bardanas
e declina o alaranjado cacho da sorveira,
componho versos bem alegres
sobre a vida caduca, caduca e belíssima.
Volto para casa. Vem lamber a minha mão
o gato peludo, que ronrona docemente,
e um fogo resplandecente brilha
no topo da serraria, à beira do lago.
Só de vez em quando o silêncio é interrompido
pelo grito da cegonha pousando no telhado.
Se vieres bater à minha porta,
é bem possível que eu sequer te ouça.

1912
.........................
De SONHO NEGRO

És sempre insólito e misterioso
e eu, a cada dia, mais submissa.
Mas teu amor, ó meu amor tirano,
é uma provação a ferro e fogo.
Tu me proíbes de rir e de cantar,
de rezar já me proibiste há muito tempo.
Desde que a nos separar nós não cheguemos,
pouco te importa o que me aconteça!
Assim, estrangeira ao céu e à terra,
eu vivo e já não canto mais.
É como se afastasses minha alma peregrina
tanto do inferno quanto do céu.

dezembro de 1917
.................
Não estás mais entre os vivos.
Da neve não podes erguer-te.
Vinte e oito baionetadas.
Cinco buracos de bala.
Amarga camisa nova
cosi para o meu amado.
Esta terra russa gosta,
gosta do gosto de sangue.

16/8/1921
............
A ERA
Ossip Mandelshtam

Minha era, minha fera, quem ousa,
Olhando nos teus olhos, com sangue,
Colar a coluna de tuas vértebras?
Com cimento de sangue - dois séculos -
Que jorra da garganta das coisas?
Treme o parasita, espinha langue,
Filipenso ao umbral de horas novas.

Todo ser enquanto a vida avança
Deve suportar esta cadeia
Oculta de vértebras. Em torno
Jubila uma onda. E a vida como
Frágil cartilagem de criança
Parte seu ápex: morte da ovelha,
A idade da terra em sua infância.

Junta as partes nodosas dos dias:
Soa a flauta, e o mundo está liberto,
Soa a flauta, e a vida se recria.
Angústia! A onda do tempo oscila
Batida pelo vento do século.
E a víbora na relva respira
O outo da idade, áurea medida.

Vergônteas de nova primavera!
Mas a espinha partiu-se da fera,
Bela era lastimável. Era,
Ex-pantera flexível, que volve
Para trás, riso absurdo, e descobre
Dura e dócil, na meada dos rastros,
As pegadas de seus próprios passos.

(1923) Tradução de Haroldo de Campos
..........
SILENTIUM

Ainda não é nascida.
É só canção e poesia,
E está em plena harmonia
Com tudo o que é vida.

O seio da onda arfa em paz,
Mas como um louco brilha o dia
E a espuma pálido-lilás
Jaz no azul-névoa da bacia.

Que em meus lábios pairasse
A quietude original
Como uma nota de cristal
Pura desde que nasce!

Volve … poesia e a canção,
Sê só espuma, Afrodite,
Coração, desdenha o coração
Que com vida coabite!
(1910)
Tradução: ????????
.............
A CONCHA

Talvez te seja inútil minha vida,
Noite; fora do golfo universal,
Como concha sem peróla, perdida,
Me arremessaste no teu areal.

Moves as ondas, como indiferente,
E cantas sem cessar tua melodia.
Mas hás de amar um dia, finalmente,
A mentira da concha sem valia.

Jazer só a seu lado pela areia
E pouco faltar para que a escondas
Nessa casula onde ela se encandeia
à sonora campânula das ondas,

E as paredes da frágil concha, pouco
a pouco, se encherão do eco da espuma,
Tal como a casa de um coração oco,
Cheio de vento, de chuva e de bruma...

(1911) - Tradução: ??????????
.............
OUTONO
Serguei Iessiênin

Égua rubra alisando as crinas:
O outono na calma dos zimbros.

Sobre a margem terrosa e áspera,
O tinido azul dos seus cascos.

Monge-vento, passo medido,
Pisa as folhagens do caminho.

E beija o Não-Visível - Cristo,
Chagas vermelhas entre arbustos.

(1914)

Até logo, até logo, companheiro,
Guardo-te no meu peito e te asseguro:
O nosso afastamento passageiro
É sinal de um encontro no futuro.

Adeus, amigo, sem mãos nem palavras.
Não faças um sobrolho pensativo.
Se morrer, nesta vida, não é novo,
Tampouco há novidade em estar vivo.

(1925) - Tradução de Augusto de Campos

(Iessiênin escreveu o poema acima com o
próprio sangue ao se suicidar cortando
os pulsos e se enforcando em seguida.)

............
SER FAMOSO...

Boris Pasternak

Ser famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.

O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.

Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.

Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.

Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como a paisagem
Oculta a nuvem com recato.

Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Mas tu não deves separar
Teu sucesso do teu fracasso.

Não deves renunciar a um mínimo
pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim.

(1956) - Tradução: ????????
..........................
O DOM DA POESIA
(Fragmento)

Deixa a palavra escorregar,
Como um jardim o âmbar e a cidra,
Magnânimo e distraído,
Devagar, devagar, devagar.

(1917)
...................
DEFINIÇÃO DE POESIA

Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, afolha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.

Um doce ervilhal abandonado
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas -
Geada no canteiro, tombado.

Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim um estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.

Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.

(1917) - Tradução de Haroldo de Campos
....................
ABRO AS VEIAS
Marina Tsvietáieva

Abro as veias: irreprimível,
Irrecuperável, a vida vaza.
Ponham embaixo vasos e vasilhas!
Todas as vasilhas serão rasas,
Parcos os vasos.

Pelas bordas - à margem –
Para os veios negros da terra vazia,
Nutriz da vida, irrecuperável,
Irreprimível, vasa a poesia.

(1934) - Tradução de Augusto de Campos
....................
CARTA

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera - a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro - uma palavra
Apenas. Isto é tudo.
Assim não se espera o bem.
Assim se espera - o fim:
Salva de soldados,
No peito - três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.
Felicidade? E a idade?
A flor - floriu.
Quadrado no pátio:
Bocas de fuzil.
(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.
Quadrado da carta.

1923 - Tradução de Augusto de Campos
...................
À VIDA

Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.

1924 - Tradução de Haroldo de Campos
..........
À VIDA

Não colherás no meu rosto sem ruga
A cor, violenta correnteza.
És caçadora - eu não sou presa.
És a perseguição - eu sou a fuga.
Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes - o corcel

1924 - Tradução de Augusto de Campos
..............
A ENCANTAÇÃO PELO RISO
Velimir Khliebnikov

Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
1910 - Tradução de Haroldo de Campos
..................
O GRILO
Aleteando com a ourografia
Das veias finíssimas,
O grilo
Enche o grill do ventre-silo
Com muitas gramas e talos da ribeira.
- Pin, pin, pin! - taramela o zinziber.
Oh, cisnencanto!
Oh, ilumínios!
1908 ou 1909
Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman
.............
Tempos-juncos
Na margem do lago,
Onde as pedras são tempo,
Onde o tempo é de pedra.
No lago da margem,
Tempos, juncos,
Na margem do lago,
Santos, juntos.

1908 ou 1909 - Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman
...................
RECUSA

Agrada-me bem mais
olhar estrelas
do que assinar sentenças
de morte.
Agrada-me bem mais
ouvir a voz das flores
que, murmurando é ele,
meneiam as corolas
quando eu cruzo o jardim
do que ver os escuros
fuzis da guarda
matarem quantos querem
matar-me –
por isso eu não serei
– jamais – um governante
.
.....................
E ENTÃO QUE QUEREIS?...
Maiakovski (1927)

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

......................
ESCÁRNIOS
Desatarei a fantasia em cauda de pavão num ciclo de matizes, entregarei a alma ao poder do enxame das rimas imprevistas.
Ânsia de ouvir de novo como me calarão das colunas das revistas esses que sob a árvore nutriz escavam com seus focinhos as raízes.

Tradução:Augusto de Campos e Boris Schnaiderman
.................
DA "V INTERNACIONAL"
Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarme para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.

Tradução: Augusto de Campos

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Comentário de Rafael Rocha em 8 agosto 2009 às 0:14
A CONFISSÃO DE UM VAGABUNDO (Serguei Iessiênin)

Nem todos sabem cantar,
Não é dado a todos ser maçã
Para cair aos pés dos outros.

Esta é a maior confissão
Que jamais fez um vagabundo.

Não é à toa que eu ando despenteado,
Cabeça como lâmpada de querosene sobre os ombros.
Me agrada iluminar na escuridão
O outono sem folhas de vossas almas,
Me agrada quando as pedras dos insultos
Voam sobre mim, granizo vomitado pelo vento.
Então, limito-me a apertar mais com as mãos
A bolha oscilante dos cabelos.

Como eu me lembro bem então
Do lago cheio de erva e do som rouco do amieiro,
E que nalgum lugar vivem meu pai e minha mãe,
Que pouco se importam com meus versos,
Que me amam como a um campo, como a um corpo,
Como à chuva que na primavera amolece o capim.
Eles, com seus forcados, viriam aferrar-vos
A cada injúria lançada contra mim.

Pobres, pobres camponeses,
Por certo estão velhos e feios,
E ainda temem a Deus e aos espíritos do pântano.
Ah, se pudessem compreender
Que o seu filho é, em toda a Rússia,
O melhor poeta!
Seus corações não temiam por ele
Quando molhava os pés nos charcos outonais?
Agora ele anda de cartola
E sapatos de verniz.

Mas sobrevive nele o antigo fogo
De aldeão travesso.
A cada vaca, no letreiro dos açougues,
Ele saúda à distância.
E quando cruza com um coche numa praça,
Lembrando o odor de esterco dos campos nativos,
Lhe dá vontade de suster o rabo dos cavalos
Como a cauda de um vestido de noiva.

Amo a terra.
Amo demais minha terra!
Embora a entristeça o mofo dos salgueiros,
Me agradam os focinhos sujos dos porcos
E, no silêncio das noites, a voz alta dos sapos.
Fico doente de ternura com as recordações da infância.
Sonho com a névoa e a umidade das tardes de abril,
Quando o nosso bordo se acocorava
Para aquecer os ossos no ocaso.
Ah, quantos ovos dos ninhos das gralhas,
Trepando nos seus galhos, não roubei!
Será ainda o mesmo, com a copa verde?
Sua casca será rija como antes?

E tu, meu caro
E fiel cachorro malhado?!
A velhice te fez cego e resmungão.
Cauda caída, vagueias no quintal,
Teu faro não distingue o estábulo da casa.
Como recordo as nossas travessuras,
Quando eu furtava o pão de minha mãe
E o mordíamos, um de cada vez,
Sem nojo um do outro.

Sou sempre o mesmo.
Meu coração é sempre o mesmo.
Como as centáureas no trigo, florem no rosto os olhos.
Estendendo as esteiras douradas de meus versos
Quero falar-vos com ternura.

Boa noite!
Boa noite a todos!
Terminou de soar na relva a foice do crepúsculo...
Eu sinto hoje uma vontade louca
De mijar, da janela, para a lua.

Luz azul, luz tão azul!
Com tanto azul, até morrer é zero.
Que importa que eu tenha o ar de um cínico
Que pendurou uma lanterna no traseiro!
Velho, bravo Pégaso exausto,
De que me serve o teu trote delicado?
Eu vim, um mestre rigoroso,
Para cantar e celebrar os ratos.
Minha cabeça, como agosto,
Verte o vinho espumante dos cabelos.

Eu quero ser a vela amarela
Rumo ao país para o qual navegamos
.
.................
(1920 - tradução Augusto de Campos)
.................
ATÉ MAIS VER, CAMARADA

Até mais ver, até mais ver, meu camarada,
querido meu, que eu carrego aqui no peito.
Promete esta separação predestinada
que nos tornemos a encontrar, em tempo estreito.

Amigo, até logo, sem parla, sem abraço,
te aflige baixo e cenho evita abatido;
que nesta vida vir morrer n’é novo caso,
e nem viver, tampouco, é claro. É chão batido.

До свиданья, мой друг, до свиданья,
милый мой, ты у меня в груди.
Предназначенное расставанье
обещает встречу впереди.

До свиданья, друг мой, без руки, без слова,
До свиданья, друг мой, без руки, без слова, –
в этой жизни умирать не ново,
но и жить, конечно, не новей.
...............................................
Comentário de Rafael Rocha em 31 agosto 2008 às 1:25
Agradeço a parabenização. Foi um lapso de minha parte não colocar aqui os nomes de Alexander Blok e Bela Akhmadulina. Mas vou deixar um pouco deles aqui.
Alexander Blok -
Do ciclo dança de morte.

Noite. Fanal. Rua. Farmácia.
Uma luz estúpida e baça.
Ainda que vivas outra vida
Tudo é igual. Não há saída.

Morres e tudo recomeça
E se repete a mesma peça
Noite. Rugas de gelo no canal.
Farmácia. Rua. Fanal.

E outro:
Do ciclo versos sobre a Bela Dama

Do tempo de naves escuras
Celebro um rito singelo.
Aguardo a Dama Formosura
À luz dos Velários vermelhos.

À sombra das colunas altas.
Vacilo aos portais que se abrem
E me contempla iluminada
Ela, seu sonho, sua imagem

Acostumei-me a esta casula
Da majestosa esposa eterna
Pelas cornijas vão em fuga
Delírios, sorrisos e lendas

São meigos os círios,. Sagrada
Doce o teu rosto resplendente
Não ouço nem som, nem palavra
Mas sei, Dileta, estás presente.
Tradução: Haroldo de Campos e Boris Shnaiderman

E de Bela Akhmadulina - um poema escrito por ela depois que o casamento acabou e o marido a deixou.

Hoje nos separamos para sempre/ e isso faz o mundo transformar-se./Tudo nele anuncia a traição:/ os rios vão se afastando das margens,/ as nuvens vão se afastando do céu,/ a mão direita olha para a esquerda/ e arrogante diz: "Vou embora, adeus!"

Abril não mais prepara o mês de maio,/ mês de maio que nunca mais verás,/ e as flores se desfolham, feitas pó./ É a derrota do azul para o amarelo!

Já as últimas flores se esturricam,/comprimento e largura não há mais,/ o branco, em estertor, já agoniza,/ deixando um arco-íris de orfãzinhas.

A natureza afoga em sua tristeza,/ a maré baixa sobe pela margem, /calam-se os sons e isso porque nós,/ você e eu, pra sempre nos deixamos.

E não custa nada, mas nada mesmo, trazer à tona Iêvguêni Iêvtushenko
NÃO QUERO A METADE DE NADA

Não, não quero a metade de nada.
Dá-me toda a terra,
depõe todo o céu!
Os mares, os rios, os riachos nos montes
são meus! Não concordo com partilhas!

Não, vida, não me terás com meias caretas!
Deves-me tudo inteiro!
Só isso me contenta!
A metade da alegria eu não quero,
e nem da dor quero só a metade!

Mas quero a metade daquela almofada
onde, sob o rosto de leve apoiado,
estrela indefesa, estrela cadente,
na tua mão o anelzinho cintila...

Tradução de Lauro Machado Coelho
Comentário de Wladimir Gomide em 30 agosto 2008 às 15:16
O Caro Amigo Rafael Rocha está de parabéns. Duplamente.

1) Reunir o melhor entre os melhores da Poesia Russa é uma proeza: Anna Akhmátova - Óssip Mândelstam - Serguêi Iessênin- Bóris Pasternak - Marina Tsvietáieva - Velímir Khliebníkov e Vladímir Maiakóvski não é pouco;
2) A excelência das traduções, realizadas pelos irmãos Campos e pelo eslavista Bóris Schnáiderman.

Permitam-me sugerir a inclusão do simbolista Alexânder Blok (1880-1921), poeta de enorme erudição - “a consciência dos intelectuais russos ” - exerceu profunda influência no desenvolvimento da lírica soviética, particularmente de Maiakóvsky, Iessênin e Pasternak.
Bela Akhmadúlina, nascida em 1937 - cujos versos, verdadeiras filigranas, refletem os movimentos da alma, incluídos aí os suspiros - poderosa artífice de uma poesia sutil e delicada.
Resta indicar Iêvguêni Iêvtushenko, nascido em 1933. Enfant Terrible da União Soviética, chegou a publicar sua "Autobiografia Precoce" por volta dos 30 anos de idade, na década de 60.
A propósito de Iêvtushenko, transcreverei uma jóia de crítica assinada por Edmundo Moniz no extinto Correio da Manhã, de cuja data não guardei registro. Contudo, o texto foi publicado na década de 60.


Iêvtuchenko em Lisboa

Edmundo Moniz (*)

Iêvtuchenko é o grande poeta da Rússia atual. Está para a nossa época como estava Maiakóvsky para os primeiros anos da Revolução. Há nele a força e a grandeza revolucionárias de um povo que iniciou a maior transformação da História. Sua obra representa, ao mesmo tempo, um grito de protesto e de esperança que, partindo da Rússia, ecoa em toda parte do mundo.
Iêvtuchenko é a voz de trinta anos silenciosos. Representa não só a reação contra o stalinismo como também contra às restrições à liberdade de pensamento, artística e literária, que ainda perduram na União Soviética. Daí o seu conflito com as autoridades governamentais que não conseguem reprimir e dominar a sua ardente combatividade. Nada existe de oficial na celebridade de Iêvtuchenko. Ele a conquistou por si próprio.
Na "Autobiografia Precoce", Iêvtuchenko apresenta, em traços rápidos mas precisos, o que foi o regime asfixiante de Stálin para os velhos revolucionários que acabaram nos cárceres e nos campos de concentração e para as novas gerações que se dedicavam, intimidadas, às artes e às letras. Mostra como um povo sob o domínio de um ditador monstruoso sem visão do papel que deveria desempenhar. “Stálin - escreve Iêvtuchenko - era o contrário de Lênin. A base do pensamento do criador da República Soviética pode ser resumida numa máxima: o comunismo deve estar a serviço dos homens. A convicção de Stálin era justamente o inverso: todos os homens devem estar a serviço do comunismo”. Stálin , na realidade confundia o comunismo com o partido, o partido com a burocracia, a burocracia com o Estado e o Estado com ele próprio. Daí seu regime anti-humanista onde imperavam o ódio, a vingança e a violência.
O culto da personalidade causava uma náusea profunda em Iêvtuchenko, mesmo no tempo em que não se havia desprendido do stalinismo. Não poderia aceitar, na poesia, a obrigação burocrática de referir-se respeitosamente ao ditador em todas as composições que escrevia. Compreendeu a impossibilidade de um florescimento literário em toda a plenitude num regime de intimidação e de censura.
Não se pode desprender a poesia da forma nem a forma do conteúdo. O conteúdo pode ser este ou aquele como a forma pode ser esta ou aquela independentes ou não das escolas literárias ou das posições ideológicas. Não existe, a não ser em tese, abstratamente, o conteúdo pelo conteúdo ou a forma pela forma. O conteúdo necessita da forma como a forma necessita do conteúdo. A tentativa alienante da arte pela arte já possui por si mesma uma substância filosófica ou política. É político o antipoliticismo. Qualquer que seja a sua tendência, a poesia mais intimista e mais hermética reflete a evolução psicológica e cultural da humanidade, desde a fase primitiva, passando pela fase clássica e pela fase romântica, até a fase atual.
Aceitando o realismo como ponto de partida para despojá-lo de sua estreita interpretação que advinha do tempo de Stálin e de Schdânov, Iêvtuchenko observa: “Considero realista toda obra de arte que foca a alma humana, mesmo quando ela não representa casas, homens ou árvores. Por outro lado, os quadros onde se vêem árvores, casas e homens são abstratos, no meu entender, se não têm vida e não nos conduzem a nenhuma emoção”.
Ao defender o abstracionismo nas artes plásticas e ao compará-lo com o figurativismo, Iêvtuchenko toca habilidosamente na ferida da questão artística. O problema sensorial deve estar relacionado com o problema racional. O valor da obra de arte repousa na potencialidade da emoção que ela desperta. Parta dos sentidos para o raciocínio ou do raciocínio para os sentidos. A poesia pode agradar pelo ritmo, pela sonoridade, pela composição em si mesma, como pode agradar pelas imagens ou pelos conceitos que emite. O problema da qualidade artística não é tão subjetivo como o problema da preferência individual ou coletiva. Não é também um problema exclusivamente de técnica. A técnica não pode deixar de contar, mas está sujeita a transformações e também ao critério da qualidade. Trata-se de um problema complexo, possuindo uma mecânica e uma dinâmica que pertencem dialeticamente a um processo peculiar de natureza individual e social. A qualidade é o produto de uma estratificação histórica e, ao mesmo tempo, de uma originalidade criadora. A obra de arte espelha o seu tempo e atua sobre ele.
A poesia lírica - intimista ou intelectualizada - como a poesia épica - descritiva, didática ou ideológica - são igualmente necessárias ao processo evolutivo da criação artística. E porque são necessários, no sentido hegeliano do termo, são indispensáveis, constituindo os dois pólos de uma mesma unidade.
Iêvtuchenko pertence à raça dos poetas épicos, dos que cantam os sofrimentos e as aspirações do povo, dos que falam abertamente, como Bertolt Brecht, sem cair na vulgaridade ou no lugar-comum. Sua poesia livre, original, comunicativa, atuante, reflete uma fase histórica que ela pretende e procura modificar.
"Iêvtuchnko em Lisboa" (Publicações Dom Quixote) contém oito poemas que o poeta visitante recitou no Teatro Capitólio, em maio de 1967, na capital portuguesa. Estes poemas, traduzidos diretamente do russo por J. Seabra-Dinis com a colaboração de Fernando Assis Pacheco, dão uma idéia da extraordinária vivacidade de Iêvtuchenko que se dirige aos homens de qualquer país como se dirigisse aos homens de sua própria terra.
Diz ele:

Todos nós somos gênios no ventre materno,
Mas muitos gênios possíveis morreram
à falta de bons papéis.
Eu não exijo sangue de ninguém ---
Exijo um papel que preste.


Iêvtuchenko, na realidade, sabe exigir o papel que deseja e conquistar o lugar que lhe pertence entre os poetas de nossa época.


(*) Edmundo Moniz (1911-1997) foi um gigante do pensamento. De formação enciclopédica, trotskista histórico, consagrou sua vida e sua obra ao binômio Política & Cultura. Ardente defensor da liberdade e do socialismo, combateu o stalinismo, o nazi-fascismo, o Estado Novo e a Ditadura Militar de 1964. Esta última, na condição de Editor-Chefe do extinto Correio da Manhã, em artigos de fundo que assinava toda terça-feira. Escreveu livros memoráveis e manteve parcerias com os maiores intelectuais e políticos de seu tempo, aqui e no exterior.
Tive a honra e o privilégio de tê-lo como mentor intelectual. De uma simplicidade extrema, meus ouvidos custavam acreditar na articulação de seu pensamento, que fluía dialeticamente.
 

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